Monday, March 26, 2007

Ter tempo para a eternidade

"Porque o que é imutável encerra o perigo do eterno, e só os deuses têm tempo para a eternidade" - Luís Sepúlveda

A cada leitura deste livro encontro uma passagem nova que me deixa maravilhado, o que me faz pensar que depende do estado de espírito em que nos encontramos, as passagens estão lá, só que a cada leitura do livro tocam-me aquelas que estão mais de acordo com o meu eu nessa altura... Seria bom ter tempo para reler todos os meus livros preferidos, mas isso seria acrescentar mais uma coisinha à lista dos pendentes!

Estou ansioso pelo regresso das tardes quentes de verão, em que (em dias de pouco stress de trabalho) me posso sentar um pouco num banco de jardim ou num final de tarde na praia apenas para ler um livro e deixar o tempo passar, como se o tempo abundasse, como se pudesse dar-me ao luxo de fazer com ele aquilo que eu quisesse, como se o tempo nunca acabasse e eu pudesse ler, escrever, fotografar, passear, contemplar fins de tarde na adraga, ter tempo para pensar, para escolher...



...E por razões que não consigo explicar o meu post quebra aqui...

Wednesday, March 21, 2007

Dia Mundial da Poesia

Não podia deixar passar o Dia Mundial da Poesia sem colocar aqui os meus dois poemas preferidos do meu poeta preferido: Eugénio de Andrade.


Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

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São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade